Reportagem

Guariglia nega fazer leilão disfarçado de venda direta

A Guariglia Leilões não fabrica automóveis, mas faz a venda direta de veículos atropelando lei criada para beneficiar um segmento exclusivo de consumidores, a quem é concedido o direito de comprar carro direto do fabricante, sem intermediários. Edital da empresa revela ainda que a venda direta é feita com as mesmas normas utilizadas nos pregões!

   

Edital de venda direta diz ter regras próprias, mas elas são idênticas as de leilões

Inserida na Lei Renato Ferrari (número 6.729/1979), que regula o comércio de carros no Brasil, a venda direta de veículos foi criada para beneficiar um público específico como produtores rurais, autoescola, transporte escolar, pessoas portadoras de deficiências. Ela se caracteriza por ser um sistema onde o comprador adquire o veículo diretamente do fabricante, sem intermediação!

Na hora de fazer negócio a pessoa pode usar a consultoria da concessionária; porém a venda é feita direto da fábrica para o cliente! Isso até alguns leiloeiros descobrirem nessa modalidade um nicho para ganhar dinheiro fácil em cima do consumidor incauto. A Guariglia Leilões, sediada em Caçapava (SP), pratica a venda direta de veículos.

A empresa, cujo leiloeiro oficial é Antônio Luiz Guariglia, registrado na Jucesp – Junta Comercial do Estado de São Paulo – sob o número 415, não fabrica carros, mas utiliza o método insertado na Lei 6.729/79 para promover a venda direta… de veículos usados! Além de usufruir-se de legislação criada para atender um segmento peculiar de clientes, ela estaria utilizando no método regras privativas dos leilões.

O gerente operacional da Guariglia, Ediney Martins Torres, admite fazer a venda direta, mas alega realizá-la seguindo uma modalidade diferente do leilão. Não é o que mostra as regras do edital. Segundo especialistas em direitos do consumidor, alguns pregoeiros teriam adotado o método de venda direta de veículos justamente para realizar leilões fugindo às legislações que regulam o setor e faturar alto em cima do esquema.

Nesta entrevista Ediney Martins, 40 anos, 14 deles dedicados à Guariglia, afirma que a empresa trabalha de forma transparente e teria sua atuação embasada juridicamente. Ele acrescenta que só revende veículos de bancos e financeiras, ou seja, veículos retomados de financiamento, e jamais carros de seguradoras. Os trechos principais da entrevista:

Leiloeiro Antônio Luiz Guariglia: o gerente Ediney Torres fala em nome dele e da empresa nesta entrevista

Sem Censura – A Guariglia realiza a venda direta de veículos; sistema que segundo especialistas em defesa do consumidor, por ser patrocinado por leiloeiro, seria uma forma de fazer leilões driblando as leis vigentes. Procede a informação?

Ediney Torres – Na Guariglia nós só trabalhamos com veículos recuperados de financiamentos; realizamos leilões e vendas diretas, ambas abertas ao público. É tudo feito às claras e as propagandas não deixam dúvidas sobre a modalidade de revenda que estaremos promovendo. Os veículos são disponibilizados para revenda de acordo com que o banco nos solicita.

Sem Censura – Qual é a diferença entre a venda direta e o leilão?

Ediney Torres – Na venda direta os veículos são em melhores condições; aqueles seminovos, único dono, quilometragem baixa. Por venderem melhor, são destinados ao pessoal de concessionária. Ela é realizada quando o comitente, o dono do veículo, que é o banco, nos pede para revender nessa forma o carro apreendido por inadimplência.

Quando o banco obtém ordem judicial para apreender o veículo, a Justiça o autoriza a revende-lo como quiser para recuperar o dinheiro.  Pode colocá-lo numa concessionária, leva-lo a leilão ou fazer a venda direta. São modalidades de vendas diferentes.

Sem Censura – O consumidor não se confunde nessas modalidades?

Ediney Torres – Não, pois quando o consumidor faz o laudo de um veículo em qualquer empresa credenciada, e as seguradoras utilizam esse laudo; o carro vem com o histórico onde está registrado: passagem por leilão, remarketing e venda direta; tem essas opções.

                O gerente operacional da Guariglia Leilões, Ediney Martins Torres, expõe a versão da empresa sobre ela fazer venda direta de veículos utilizando-se de regras privativas dos pregões! As denúncias envolvem ainda a revenda de carro de seguradora como se fosse de financeira, veículo com documentos que não lhe pertenciam, peças retiradas após o pagamento, defeitos omitidos no edital.

Sem Censura – A Guariglia permite ao arrematante verificar a placa e o Renavam do veículo para verificar o histórico do bem que pretende comprar?

Ediney Torres – Claro que sim. Só não damos essa permissão às empresas que vem aqui com o objetivo de prejudicar o negócio, depreciar o veículo. Elas anotam a placa e pegam informações do carro para jogá-las num sistema de base de dados e misturá-los com veículos de seguradoras, de leilão de sinistro.

Por isso explicamos ao cliente quando ele vai participar do evento que os veículos são todos de bancos, não de um qualquer. São empresas sérias, idôneas. E acrescentamos, é o banco Itaú, o Bradesco, o Santander que está vendendo o veículo e ele lhe garante que o carro não tem problema; não tem débitos, não tem restrição alguma.

Sem Censura – Qual é a política da Guariglia no trato com o arrematante?

Ediney Torres – Temos mais de 200 mil clientes cadastrados em nossa base e estamos no mercado desde 1998, por isso temos uma boa relação com os clientes que apreciam principalmente a transparência com que trabalhamos nesse ramo. O objetivo é oferecer sempre uma boa experiência de compra e também dar todo suporte necessário no pós-venda para os casos que os compradores precisam de alguma ajuda ou informação.

Sem Censura – O direito de informar, o direito de se informar, e o direito de ser informado traduzem o princípio da transparência, reza a Carta Magna. A Guariglia segue esses ditames constitucionais?

Ediney Torres – Com certeza. Ao acessar nosso site e navegar pelos leilões o interessado poderá perceber que a transparência é total, as condições de venda estão bem detalhadas, as informações do carro, observações e defeitos, se o veículo funciona, a quilometragem, se falta alguma peça importante, se possui chave, se já foi taxi, diversas fotos dos veículo, vídeo dos veículos mostrando o máximo de detalhes, a comissão e as taxas são exibidas e explicadas, o histórico de lances é exibido, e temos nosso suporte e atendimento inclusive por WhatsApp para ajudar nas dúvidas e informações. Qualquer um pode inclusive acessar www.guariglialeiloes.com.br e verificar tudo isso que mencionei.

Sem Censura – Se o negócio é tão seguro por que muitos consumidores denunciam terem descoberto dívidas sobre o veículo só depois de arrematá-lo?

Ediney Torres – Se aparecer um real de problema, uma restrição qualquer após a pessoa comprar o veículo no leilão, ela pode me apresentar aqui que o banco vai pegar o carro de volta, vai resolver. Às vezes o banco faz a documentação do carro no dia três e no dia cinco entra um gravame, uma restrição administrativa, uma multa que estava em tramitação, pois os veículos estavam rodando nas mãos de outras pessoas.

Débitos podem aparecer futuramente porque uma pessoa que tem um carro financiado e não quer pagá-lo mais, resolve vende-lo com a pendência de uma multa por excesso de velocidade que não está no sistema ainda quando o banco apreende o carro. Ele faz a documentação do carro que vem para o leilão e a multa aparece dois meses depois que a pessoa o arrematou.

                   “Arrematei um veículo da Guariglia anunciado como ‘recuperado de financiamento’. Quando tentei fazer o seguro descobri que o mesmo, um IX-35, já havia passado por outro leilão em 2016 como sinistrado, conforme provam as fotos no site do DETRAN-SP. Segundo a vistoria de seguradora, o veículo não está regularizado para uso e consta que nem saiu do leilão em 2016…”

Sem Censura – Continua sendo responsabilidade do leiloeiro pagar a multa surgida posteriormente?

Ediney Torres – Depende de cada condição de venda. A maioria dos bancos estipulam que até R$ 500,00 de multas surgidas depois do leilão será por conta do comprador e quando ele faz a compra assina um termo afirmando estar ciente disso. Se a multa ultrapassar esse valor, o banco fará o pagamento. Até a data do leilão o despachante levanta todas as informações nos sistemas de buscas, paga os débitos existentes e faz os documentos, até porque para se fazer os documentos é preciso quitar as pendências.

Não só em leilão, como em qualquer venda de carro usado, a pessoa pode comprar um carro e depois de pagá-lo aparecer uma multa que o antigo dono recebeu em outro estado seis meses antes. As multas aplicadas pela Polícia Rodoviária Federal de Minas Gerais, por exemplo, demoram até 90 dias para cair no sistema nacional. É bom lembrar, o comprador não está adquirindo veículos novos e sim que rodavam em mãos de outros donos pelo Brasil inteiro e o arrematante não sabe se o antigo dono tinha multas em aberto.

Sem Censura – Se o arrematante de um veículo no leilão da Guariglia descobre dois meses depois uma multa no valor de R$ 3 mil. De quem é a responsabilidade pelo pagamento desse débito? É do comitente, do leiloeiro, ou do arrematante?

Ediney Torres – Depende das nossas condições de vendas, que o cliente assina, e que estão todas previstas no edital. Se o cliente ler o edital, não terá nenhuma dúvida. No edital está escrito “multas que surgirem após a data do leilão, de até R$ 500,00, será paga pelo arrematante”. Ele está ciente disso, pois para dar um lance no leilão online é preciso aceitar as normas. Caso contrário, não conseguirá fazer o login para participar. O que pode ocorrer é o arrematante marcar a opção “eu aceito” sem ler o que prevê o edital.

Sem Censura – O edital da Guariglia segue as legislações que regulam os leilões?

Ediney Torres – Sim, o nosso edital é bem claro, é embasado juridicamente e prevê que se aparecerem multas futuras acimas de R$ 500,00 o comitente vai pagar. Se forem multas de R$ 5 mil, R$ 10 mil o comitente é quem vai pagar esses débitos. A discussão é: o arrematante pagar a multa e depois vir aqui para querer receber o dinheiro de volta.

O arrematante precisa vir fazer a evidência, a gente vai enviar para o banco, que pedirá três dias para pagar as multas. Na questão de multas é assim que funciona, é bem transparente. Se você entrar no nosso site, em como participar do leilão e ler as condições de venda, verá que é tudo bem explicativo, cita as questões de inadimplência, a legislação que é aplicada; explicamos tudo sobre o funcionamento do leilão.

Sem Censura – O senhor afirma que toda a atuação da Guariglia obedece ao ordenamento jurídico. Como explica então vocês serem membros da Aleibras se o Decreto de 1932 que regula a profissão de leiloeiro o proíbe de se filiar a qualquer associação ou sindicato e as legislações subsequentes mantiveram essa proibição?

Ediney Torres – Não é filiado; a Aleibras é uma associação de leiloaria, sem fins lucrativos. Hoje a maioria dos leiloeiros trabalha com as mesmas empresas, os mesmos bancos e a Aleibras facilita muito a troca de informações, mas ela não tem relação com outra coisa. A Aleibras surgiu para facilitar a troca de informações, isso é outorgado pelos bancos. Se ela fosse ilegal, algo fora da curva, nenhum leiloeiro arriscaria o pescoço participando da associação; pelos menos os grandes não estariam lá.

                   “Comprei um carro blindado na Guariglia que mais parecia um aquário quando chovia; entrava água por todos os lugares possíveis… quando o arrematei dizia não ter problema algum, mas na oficina descobri que veio com peças trocadas, faróis e sistema elétrico cheio das engenhocas pra enganar…”

Sem Censura – Por que existem tantas denúncias de vítimas que arremataram carros com altas dívidas em aberto; outros que dois anos após a compra não receberam a documentação do veículo, além da venda de carro clonado, com chassi remarcado e até bloqueio judicial,  realidade que se constata pelos inúmeros processos judiciais tramitando em fóruns do Brasil inteiro?

Ediney Torres –Todos os carros que a Guariglia revende são vistoriados por empresas credenciadas pelo Detran e aqui não enfrentamos esse tipo de reclamações. Mas, se alguém arrematar um carro com algum problema, o banco assume toda a responsabilidade e se for o caso, recompra o veículo e indeniza o cliente pelas benfeitorias que porventura ele tiver feito.

Sem Censura – Por que leiloeiros vendem veículos com chassi remarcado?

Ediney Torres – O chassi remarcado é um procedimento legalizado pelo Detran de São Paulo e pelos Detrans dos principais estados. A remarcação é feita porque a maioria dos chassis se deteriora como consequência de um projeto mal feito por alguns fabricantes de veículos. É muito mais viável o condutor ter um carro com o chassi remarcado do que circular com o veículo sem a identificação do chassi.

Se a pessoa compra modelos antigos a exemplo de Ford k, fiat uno, fiat pálio, o chassi desses carros se deteriora com o tempo. Em São Paulo e em outros principais estados do Brasil existem as empresas credenciadas pelo Detran para fazer a remarcação do chassi.

Sem Censura – Como funciona o processo da remarcação de chassi?

Ediney Torres – O dono particular do carro, ou o banco, no caso nosso, faz um requerimento junto ao Detran com um laudo de vistoria atestando que o chassi foi reprovado, não tem como ser visualizado mais, e precisa de uma regularização perante o Detran. O Órgão então expede uma autorização para se fazer a remarcação do chassi em empresas credenciadas junto a ele.

O procedimento é feito em local, data e hora determinados anteriormente e é tudo homologado pelo Detran, inclusive os equipamentos que farão a remarcação. Quando se fizer a próxima transferência do carro, já vai constar no sistema do Detran que aquele chassi foi remarcado. Além do chassi, é legalizado e regulamentado pelo Detran a remarcação do motor, um sistema mais complicado porque nesse caso, é preciso trocar o bloco do motor.

              “Arrematei o automóvel Ford KA Flex 2010 Placa HNA-5797 em novembro de 2017. Quando levei os documentos no despachante a fim de transferir o veículo para o meu nome, descobri que o carro está bloqueado pela Justiça e com bloqueio de circulação”.

Sem Censura – A Guariglia aceita o arrematante levar um mecânico ou um despachante da confiança dele para verificar o carro no leilão?

Ediney Torres – Claro que sim e não ocultamos as placas aqui. A única coisa que a gente preserva na visita é manter o carro fechado para gente de má fé não ficar mexendo onde não deve. Mas se o cliente quer ver um carro específico, ele poderá abrir o veículo, por pra funcionar e ver que está tudo em ordem.

Sem Censura – A enxurrada de denúncias de consumidores lesados não seria o fator principal para afundar esse mercado de consumo no descrédito popular?

Ediney Torres – O mercado está com aparente fragilização, mas se você acompanhar um leilão nosso, por exemplo, terá uma visão diferente porque as pessoas o estão procurando, estão comprando, estão fazendo negócios. Tem gente deixando de fazer um bom negócio apenas por medo, mas eu lhe dou as informações que você quiser saber mais para esclarecer quaisquer dúvidas sobre a revenda de veículos de financiamentos pelo sistema de leilão e de venda direta.

Sem Censura – A Guariglia está envolvida na briga de alguns leiloeiros contra a Copart?

Ediney Torres – Não, de jeito algum. Não temos nenhuma ligação com essa demanda e nem com a empresa, que a gente não conhece e nem é concorrente nossa, pois não mexemos com carros de seguradoras, carros batidos, essas coisas. Somos do ramo de financeiras, um formato um pouco diferente desse que a maioria imagina que seja um leilão.

Trabalhamos com o Banco Safra, Santander… Aqui ocorre até a entrega amigável do carro que a pessoa não aguentou pagar. Inclusive nos nossos leilões os clientes entregam os veículos e ficam acompanhando o leilão para ver quanto vão pegar para saber qual o valor será abatido da dívida dele.

Sem Censura – Enquanto em outros países o setor de leilões, principalmente o de veículos, deslancha a todo vapor, no Brasil o sistema é visto com desconfiança por uma maioria da sociedade e muitos ainda o considera negócio para pobre. Por quê?

Ediney Torres – Isso é verdade, mas infelizmente tem uma outra parte da sociedade que está aproveitando para fazer muito negócio no leilão. Nós estamos a 22 anos em São Paulo com uma carteira de clientes excelentes. Do Sul, de Minas, de São Paulo… São pessoas que gostam de comprar, fazem bons negócios, não tem reclamação. O grande problema hoje é a pessoa procurar lugares errados pra comprar, pois está havendo muitos golpes de leilões falsos e as pessoas estão perdendo dinheiro. Doze sites já falsificaram o nosso negócio e nós tivemos de veicular matérias em emissoras de tevê alertando a população sobre essas fraudes.

Aqui nessa semana uma vítima perdeu R$ 40 mil, outro perdeu R$ 50 mil, e nunca mais vão reaver esse dinheiro porque os golpistas usam provedores de outros países, como da Virgínia, por exemplo. Quando rastreados os domínios não existem, as contas estão em nomes de laranjas, o CNPJ existe, mas não está cadastrado na Receita. Existe hoje mais de 1000 sites falsos de leilões fraudulentos.

 

 

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